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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

AnáliseModa

G-Dragon lidera ranking de moda da Complex: o que o Top 25 revela sobre o estilo no K-pop

Jennie, RM, Seo Taiji e Lisa completam o Top 5 de uma lista que atravessa diferentes gerações e mostra como a relação entre K-pop e moda mudou nas últimas três décadas.

Jenifer Rodrigues

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Hoje, encontrar um idol de K-pop na primeira fila de um desfile em Paris ou Milão não surpreende mais. Chanel, Louis Vuitton, Dior, Saint Laurent, Gucci e outras grandes casas construíram relações cada vez mais próximas com artistas sul-coreanos, e anunciar um novo embaixador se tornou parte recorrente da agenda da indústria. Há pouco mais de uma década, porém, essa relação estava longe de ter as dimensões atuais. É justamente essa mudança que torna interessante o novo ranking publicado pela Complex em 24 de setembro. Ao escolher os 25 artistas mais bem vestidos da história do K-pop, a revista não colocou no topo simplesmente quem atualmente acumula os maiores contratos com grifes. Olhou para mais de três décadas de música coreana e tentou identificar quem transformou roupa em parte da própria identidade artística.

O resultado colocou G-Dragon, do BIGBANG, em primeiro lugar, seguido por Jennie, do BLACKPINK, RM, do BTS, Seo Taiji e Lisa, do BLACKPINK. Taeyang aparece em sexto, seguido por Lee Hyori, J-Hope, Oh Hyuk e CL, que completa o top 10. Rosé ocupa a 11ª posição e T.O.P a 12ª. Depois aparecem Lil Moshpit, Hyein, Lee Chanhyuk, Lara, Annie, Felix, Martin, Hanni, Zion.T, Uhm Jung-hwa, Yeonjun, Ningning e Jaehyun.

É um ranking subjetivo, como qualquer lista sobre estilo. A própria escolha de colocar artistas com quase três décadas de carreira ao lado de nomes que chegaram à indústria recentemente cria comparações difíceis. Mas, quando a ordem deixa de ser encarada apenas como uma competição para decidir quem “se veste melhor”, aparece uma leitura muito mais interessante. A lista da Complex funciona quase como uma linha do tempo da relação entre K-pop e moda.

G-Dragon está em primeiro porque veio antes da normalização

A justificativa da Complex para colocar G-Dragon no topo começa antes de Chanel, Nike ou PEACEMINUSONE. A revista argumenta que ele ajudou a estabelecer um espaço que hoje parece natural para artistas de K-pop: o de uma estrela asiática que não simplesmente veste roupas de luxo, mas participa da conversa internacional sobre moda.

Essa percepção não nasceu retrospectivamente. Em 2015, quando a Chanel levou sua coleção Resort para o Dongdaemun Design Plaza, em Seul, a Vogue já apresentava G-Dragon como possivelmente o maior influenciador de estilo da capital sul-coreana. Seu guarda-roupa transitava entre Rick Owens, Saint Laurent, Balmain e Chanel, enquanto sua imagem alternava referências tradicionalmente masculinas e femininas sem perder uma identidade imediatamente reconhecível.

No ano seguinte, a mesma revista dedicou uma seleção inteira aos looks usados por G-Dragon na Chanel e destacou que sua relação com a maison vinha pelo menos desde sua presença na coleção Pre-Fall 2014, em Dallas. Em 2017, ele voltou a chamar atenção ao comparecer a um desfile usando uma peça da coleção feminina da Chanel, combinada a outros elementos de maneira própria. A questão nunca foi somente ter acesso às roupas. Era o que ele fazia com elas.

Essa diferença ajuda a explicar por que a Complex o coloca acima de artistas que atualmente podem ter uma presença comercial tão grande ou até maior dentro do luxo. G-Dragon construiu sua identidade fashion antes de a associação entre idol e maison se transformar em uma fórmula consolidada.

E sua atuação posteriormente ultrapassou a posição de consumidor ou embaixador. A PEACEMINUSONE transformou sua linguagem visual em marca, enquanto projetos e colaborações, incluindo sua relação com a Nike, colocaram seu nome diretamente sobre produtos. Em outro ranking da própria Complex, publicado em 2025 e dedicado às celebridades mais bem vestidas do século XXI de maneira geral, G-Dragon já aparecia na 16ª posição. A revista argumentava naquele momento que ele havia introduzido moda de luxo e streetwear para uma nova audiência muito antes da atual explosão global do K-pop.

Por isso, o primeiro lugar fala menos sobre quem produziu o melhor look de 2026 e mais sobre quem ajudou a estabelecer o modelo de idol como referência internacional de estilo.

Jennie mostra como influência virou desejo

Se G-Dragon representa a abertura desse caminho, Jennie representa o tamanho que ele alcançou.

A integrante do BLACKPINK aparece em segundo lugar e recebe da Complex uma justificativa diferente. Sua influência está ligada à capacidade de transformar praticamente qualquer escolha de styling em assunto, desejo e, frequentemente, tendência entre seus fãs. É o fenômeno que a própria publicação chama de “Jennie effect”.

Sua longa relação com Chanel é uma parte importante dessa construção, mas não a única. Jennie circula por Alaïa, Jacquemus e outras marcas, aparece no Met Gala e desenvolveu uma imagem suficientemente reconhecível para existir além de uma única maison. A roupa funciona simultaneamente como expressão individual e como um mecanismo poderoso de circulação de tendências.

Existe uma diferença interessante entre os dois primeiros lugares. G-Dragon aparece associado à ideia de precedente, experimentação e autoria. Jennie representa alcance, desejo e capacidade de converter escolhas pessoais em fenômenos de consumo.

Os dois ajudam a explicar momentos diferentes da relação entre K-pop e moda.

RM em terceiro quebra uma lógica que parecia óbvia

A terceira posição talvez seja a escolha mais interessante de toda a lista.

RM aparece acima de artistas como Lisa, Taeyang, J-Hope, CL e Rosé sem construir sua imagem ao redor do maximalismo normalmente associado à figura de uma fashion icon. É justamente o contrário. A Complex destaca sua preferência por silhuetas mais relaxadas, tons discretos, alfaiataria e peças que não dependem de logotipos enormes para serem reconhecidas.

A presença de RM tão perto do topo introduz uma ideia importante: influência estética não precisa significar vestir a peça mais chamativa da sala.

Há coerência suficiente em suas escolhas para que elas formem uma linguagem. Sua aproximação com arte, design, artesanato e moda aparece de maneira integrada à persona pública que construiu. Nesse sentido, a relação com Bottega Veneta funciona mais como consequência dessa identidade do que como sua origem.

Isso também explica um dos critérios mais importantes adotados pela Complex. Um contrato com uma maison pode ampliar uma imagem, mas não necessariamente cria estilo pessoal. Se bastasse somar campanhas publicitárias, o ranking seria muito diferente.

Para entender Seo Taiji em quarto, é preciso voltar a 1992

Logo depois de RM aparece um nome que muda completamente a escala histórica da lista: Seo Taiji.

Antes de existir a indústria de idols como ela é conhecida atualmente, Seo Taiji and Boys ajudou a transformar a música popular sul-coreana no início dos anos 1990. Quando o grupo apareceu em 1992 com “I Know”, sua ruptura também era visual. Referências ao hip-hop, sportswear, roupas largas e uma estética juvenil diferente daquela predominante na televisão coreana faziam parte do impacto. A própria Complex começa seu ranking reconhecendo Seo Taiji and Boys como um ponto fundamental para a formação do K-pop contemporâneo.

Colocá-lo em quarto significa admitir que moda no K-pop não começou quando as grandes maisons descobriram o poder comercial dos fandoms.

Muito antes de Fashion Week, campanhas globais e “airport fashion” fazerem parte do vocabulário da indústria, roupas já funcionavam como instrumento para comunicar mudança geracional. Seo Taiji não precisava de um contrato com uma maison europeia para que sua aparência dissesse alguma coisa. O próprio contraste com aquilo que existia antes dele era a mensagem.

É uma das distinções mais importantes que o ranking faz entre seguir uma tendência e participar da criação de uma nova referência visual.

BIGBANG mostra o momento em que estilo deixou de ser apenas figurino

Há outro dado difícil de ignorar: três integrantes do BIGBANG aparecem entre os 12 primeiros.

G-Dragon ocupa o primeiro lugar, Taeyang o sexto e T.O.P o 12º.

Os três, porém, não estão ali pela mesma estética. G-Dragon representa experimentação e mistura de referências. Taeyang desenvolveu uma imagem fortemente atravessada pelo hip-hop, denim, couro, joias e rock. T.O.P construiu uma presença mais próxima de alfaiataria, arte e colecionismo.

Essa variedade ajuda a entender uma característica importante da segunda geração. A moda começou a deixar de funcionar apenas como “conceito do comeback”. Alguns artistas passaram a ser reconhecidos pelo que vestiam fora do palco, e suas escolhas pessoais começaram a importar tanto quanto o styling criado para performances.

É nesse contexto que a ida da Chanel a Seul em 2015 parece ainda mais significativa quando observada hoje. A coleção Resort apresentada no DDP reuniu estrelas internacionais e nomes coreanos na primeira fila, enquanto Karl Lagerfeld incorporava referências coreanas à própria coleção. A Vogue registrou G-Dragon e CL entre as celebridades que mais chamaram atenção naquela noite.

A relação já estava deixando de ser unilateral. A moda ocidental não estava apenas chegando à Coreia. A cultura pop coreana começava a ocupar espaço dentro da moda global.

BLACKPINK transformou essa aproximação em escala global

Na geração seguinte, aquilo que ainda parecia excepcional passou a ganhar escala.

Três integrantes do BLACKPINK aparecem entre as 25 escolhidas pela Complex: Jennie em segundo, Lisa em quinto e Rosé em 11º. Jisoo não integra a seleção.

Mesmo dentro do mesmo grupo, as três representam relações diferentes com moda. Jennie é analisada principalmente pela capacidade de gerar tendências. Lisa aparece pela força de sua imagem e capacidade de transportar referências entre cultura pop, streetwear e luxo. Rosé construiu uma associação estética muito consistente com Saint Laurent.

Essa geração coincidiu com uma transformação fundamental: o K-pop deixou de ser apenas uma ferramenta para marcas alcançarem consumidores asiáticos e seus artistas passaram a ocupar campanhas verdadeiramente globais.

O idol não aparece mais apenas como convidado na primeira fila. Ele pode estar na campanha, no outdoor, no Met Gala, na capa da revista e, principalmente, diante de uma audiência própria de milhões de pessoas que acompanha cada uma dessas aparições.

A moda percebeu que o fandom também é público consumidor.

RM e J-Hope provam que nem dentro de BTS existe uma única linguagem

BTS também coloca dois integrantes no top 10: RM em terceiro e J-Hope em oitavo.

A distância estética entre os dois talvez seja mais interessante do que simplesmente contar quantos membros aparecem.

RM trabalha com contenção. J-Hope frequentemente trabalha com excesso, sobreposição, streetwear e experimentação. Um pode construir um look ao redor de uma silhueta aparentemente simples; o outro pode transformar acessórios, proporções e combinações inesperadas no centro da composição.

Ainda assim, a Complex encontra o mesmo elemento nos dois: identidade.

É uma diferença importante em uma indústria na qual artistas passam constantemente pelas mãos de stylists e vestem roupas selecionadas para campanhas, videoclipes, shows e compromissos promocionais. Quanto mais profissionalizada se torna a imagem do idol, mais difícil também fica separar aquilo que pertence ao styling corporativo daquilo que constitui efetivamente o gosto daquele artista.

O ranking privilegia aqueles cuja identidade continua perceptível apesar dessa estrutura.

E é aí que a quinta geração cria um problema para o ranking

A lista mistura artistas cuja influência pode ser observada ao longo de décadas com nomes que ainda estão construindo suas primeiras referências.

Hyein aparece em 14º, Lara, do KATSEYE, em 16º, Annie em 17º, Felix em 18º e Martin, do CORTIS, em 19º. Yeonjun fica em 23º e Ningning em 24º.

A própria Complex reconhece essa diferença em alguns casos. Ao falar de artistas mais recentes, passa a avaliar também potencial e aquilo que eles já demonstraram em um período muito menor.

Metodologicamente, é a parte mais vulnerável da lista.

Como comparar a influência acumulada de alguém que passou vinte anos moldando sua identidade pública com a de um artista que ainda não teve tempo para provar se aquilo que hoje parece uma assinatura permanecerá relevante daqui a uma década?

Talvez não seja possível.

Mas essa dificuldade revela outra transformação importante. Idols estão entrando no ecossistema da moda cada vez mais cedo. Hoje, um artista não precisa passar anos construindo fama antes de chamar atenção de uma grande marca. Moda, música e estratégia de imagem começam praticamente juntas.

Isso aumenta a exposição, mas torna ainda mais valiosa a capacidade de desenvolver algo próprio.

Ser embaixador deixou de ser suficiente

Talvez essa seja a principal conclusão possível a partir do ranking.

O K-pop chegou a um ponto em que vestir luxo deixou de ser excepcional.

Quando dezenas de artistas têm contratos com maisons importantes, a existência do contrato já não diferencia automaticamente ninguém. O valor passa a estar naquilo que acontece depois que a roupa chega às mãos do artista.

G-Dragon pode vestir Chanel sem parecer simplesmente um homem usando Chanel. Jennie consegue transformar uma peça em objeto de desejo. RM faz da discrição uma assinatura. Seo Taiji aparece décadas depois porque sua estética representou uma ruptura cultural. CL continua sendo lembrada porque sua imagem ajudou a expandir aquilo que uma mulher poderia representar visualmente dentro do K-pop de sua geração.

É por isso que o ranking funciona melhor quando não é interpretado literalmente como uma competição.

A pergunta interessante não é simplesmente “quem se veste melhor?”

É “quem fez alguma coisa com a moda?”

E os 69% que concordaram com G-Dragon?

Depois da publicação, a Complex abriu seu sistema de participação chamado Re-Rank, que permite aos leitores reorganizar a lista. Em uma publicação nas redes sociais, a revista informou que 69% dos participantes concordavam com G-Dragon na primeira posição.

O dado precisa ser interpretado corretamente. Não significa que 69% dos fãs de K-pop no mundo consideram G-Dragon o artista mais bem vestido da história. Trata-se da reação dos usuários que participaram da ferramenta da própria Complex, sem características de uma pesquisa representativa da população global de fãs.

Ainda assim, existe algo significativo no fato de o primeiro lugar provocar menos ruptura do que poderia se esperar em uma indústria tão movida por gerações e fandoms diferentes.

Quase vinte anos depois da estreia do BIGBANG, G-Dragon continua sendo usado como referência para discutir moda no K-pop. Em 2015, a Vogue já observava sua influência. Em 2025, a Complex o colocou entre as 25 celebridades mais bem vestidas de todo o século XXI. Agora, em 2026, ele aparece no topo de uma lista dedicada especificamente a mais de três décadas de K-pop.

Talvez seja justamente aí que o primeiro lugar faça mais sentido dentro dos critérios escolhidos pela revista.

A moda no K-pop mudou profundamente desde Seo Taiji. Passou pelas roupas largas e pelo hip-hop dos anos 1990, pela experimentação da segunda geração, chegou às primeiras filas internacionais, transformou idols em embaixadores e finalmente colocou estrelas coreanas no centro das campanhas globais das maiores casas do mundo.

G-Dragon atravessou uma parte considerável dessa transformação enquanto construía uma linguagem própria.

O ranking da Complex não diz apenas que ele continua sabendo se vestir. Ele mostra que, para entender por que a moda ocupa o espaço que ocupa no K-pop de 2026, ainda é necessário olhar para aquilo que aconteceu antes de esse espaço existir.

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