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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

ReviewOpinião

ADÉLA volta para Bratislava e pergunta quem pode sonhar em ser uma pop star

Filmada em Bratislava e inspirada por uma fotografia da mãe da cantora, “Ain’t In LA” transforma origem, ambição e desigualdade de acesso em matéria para uma canção pop deliberadamente contraditória.

Jenifer Rodrigues

· 13 min de leitura

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9

Veredito da TONG

Nota da crítica, de 0 a 10 — independente e sem interferência comercial.

ADELA - Ain’t In LA

Em 23 de julho de 2026, ADÉLA lançou “Ain’t In LA” e apresentou, no mesmo dia, o MV dirigido por Fred Gervais, filmado em Bratislava, cidade onde nasceu e cresceu. O single chegou durante a campanha de PRIMA, primeiro álbum completo da cantora, previsto para 4 de setembro pela Capitol Records. Nas prévias oficiais do projeto, “Ain’t In LA” aparece como a 11ª e última faixa do disco. [1][2][3]

A coincidência entre música, cidade e momento de carreira é importante. ADÉLA deixou a Eslováquia para perseguir uma indústria que durante décadas concentrou em poucas cidades a capacidade de decidir quem poderia ser transformado em imagem global. Agora, já muito mais próxima desse centro, ela retorna ao lugar de origem para questionar justamente sua autoridade simbólica.

Seria simples demais ler “Ain’t In LA” como uma defesa da autoestima de quem mora longe de Hollywood. A música contém essa ideia, mas seu ponto mais fértil está em outro lugar. Ela pergunta por que determinadas pessoas precisam sair de casa para que seu talento seja reconhecido, quem possui dinheiro ou possibilidade para fazer essa mudança e quantas outras nunca chegam a ser vistas.

É aí que Bratislava deixa de funcionar apenas como localização e passa a funcionar como argumento.

Uma fotografia anterior à carreira de ADÉLA

A origem da canção está numa imagem que precede a própria existência da cantora.

Durante uma visita à Eslováquia, ADÉLA encontrou fotografias de sua mãe aos 18 anos diante de uma parede coberta por referências da cultura pop ocidental. Segundo a artista, seu avô havia levado aqueles pôsteres da Alemanha para a então Tchecoslováquia. Ao olhar para a mãe naquela idade, cercada por imagens de estrelas produzidas muito longe dali, ADÉLA começou a pensar em quantas mulheres igualmente ambiciosas, talentosas ou interessantes nunca receberam a visibilidade que ela agora começava a conquistar. [1]

Essa história muda bastante o sentido da música.

A parede não era simplesmente decoração adolescente. As imagens chegavam a uma Tchecoslováquia socialista cuja relação com a produção cultural ocidental era atravessada por restrições políticas, censura e mecanismos de controle, especialmente durante o período de “normalização” que se seguiu à invasão de 1968 liderada pela União Soviética e outros países do Pacto de Varsóvia. Isso não significa que toda cultura ocidental fosse completamente proibida. A realidade era mais contraditória. Música, moda e outras referências circulavam, mas dentro de condições muito diferentes daquelas encontradas no Ocidente. [7][8]

A Tchecoslováquia, vale lembrar, não fazia parte da União Soviética. Era um Estado socialista situado na esfera de influência soviética. Nesse contexto, os pôsteres carregavam algo além de admiração por celebridades. Representavam pessoas, roupas, comportamentos, lugares e possibilidades de vida cuja circulação material e simbólica era desigual.

Décadas depois, a filha daquela jovem aparece contratada por uma das grandes gravadoras americanas.

É difícil encontrar imagem mais precisa para explicar a contradição que sustenta “Ain’t In LA”.

Los Angeles é uma cidade, mas também é uma instituição

O título funciona porque Los Angeles significa várias coisas ao mesmo tempo.

Existe a cidade concreta. Mas, dentro da música, LA também representa Hollywood, dinheiro, beleza institucionalizada, a indústria musical, acesso a produtores, empresários, estúdios, mídia e todo o mecanismo que transforma uma pessoa talentosa em uma pessoa conhecida.

A letra trabalha com mulheres que não possuem necessariamente esse acesso. Aparecem referências a quartos compartilhados, roupas que não carregam o preço das grandes marcas e à tentativa de construir estilo a partir do que está disponível. Estrelas do pop são consumidas como imagens, muitas vezes de longe.

Essa é uma das partes mais eficientes da composição porque fala sobre classe sem transformar a canção em um discurso didático. O que separa essas garotas das estrelas que admiram não é apresentado como falta de personalidade, beleza ou ambição. É infraestrutura.

A decisão de gravar o MV em Bratislava, portanto, é fundamental. A própria existência da canção depende da distância entre quem produz grande parte das imagens globais de estrelato e quem cresce olhando para elas de outro ponto do mapa.

“Ain’t In LA” também não tenta rejeitar completamente a estética americana. Pelo contrário. Ela se apropria dos códigos que fizeram Los Angeles significar alguma coisa para gerações de pessoas. E é aí que a obra fica mais interessante. ADÉLA não está propondo o fim da fantasia de Hollywood. Está discutindo quem recebeu permissão para participar dela.

Bratislava não precisa fingir que é Los Angeles

Voltar à Eslováquia poderia facilmente resultar num MV organizado em torno de uma lógica turística. Monumentos reconhecíveis, paisagens bonitas, referências nacionais colocadas em primeiro plano apenas para garantir a leitura de “retorno às origens”. A ideia de “Ain’t In LA” é mais produtiva quando evita esse caminho.

Bratislava não precisa competir com Los Angeles em grandiosidade visual. Sua função dentro do projeto é justamente existir como um lugar no qual vidas, desejos, famílias e identidades já estavam sendo construídos antes de qualquer validação externa.

Essa distinção é importante. Se a cidade fosse usada apenas como cenário exótico para reproduzir uma fantasia americana, o MV deslocaria a produção geograficamente sem deslocar seu imaginário. O centro continuaria sendo Hollywood. Bratislava estaria apenas interpretando seu papel.

Mas a história da mãe transforma essa operação em algo mais complexo. A cidade representa o ponto de onde aquelas imagens eram vistas antes que uma pessoa da família pudesse entrar no sistema que as produzia.

O retorno de ADÉLA, então, contém duas posições simultâneas. Ela é a garota que saiu de Bratislava. Também é a estrela que agora possui recursos para voltar acompanhada por uma produção internacional. A segunda posição não apaga a primeira.

Mulheres que poderiam ter sido as protagonistas

A inspiração familiar permite que “Ain’t In LA” ultrapasse a história individual de ADÉLA.

Os créditos públicos do MV incluem sua mãe, Maria, e sua irmã, Stella, além de dançarinas, amigas, crianças e mulheres mais velhas. [4] A presença dessas figuras é coerente com o princípio que originou a música: imaginar quantas mulheres possuem histórias, desejos e capacidade de construir uma imagem de si mesmas, embora nunca tenham sido colocadas no centro de uma máquina de celebridade.

Isso é particularmente importante porque seria fácil transformar “Ain’t In LA” numa celebração retrospectiva da própria ascensão de ADÉLA. Ela saiu de Bratislava, conseguiu entrar na indústria americana e voltou para casa como estrela. Essa é uma narrativa pronta, confortável e extremamente familiar ao marketing musical. Mas também seria a versão menos interessante da história.

O argumento da música cresce quando a protagonista não parece ser a única pessoa digna do enquadramento. A fotografia da mãe que originou a canção já sugeria isso. O ponto não era descobrir que ADÉLA poderia se tornar uma estrela. Era perceber que inúmeras outras mulheres talvez pudessem ter ocupado lugares semelhantes se as condições de acesso fossem diferentes.

Nesse sentido, a família dentro do MV não funciona apenas como um recurso sentimental. Ela introduz uma pergunta incômoda. Qual é a diferença entre alguém que possui a capacidade de imaginar a fama e alguém que efetivamente recebe os recursos para alcançá-la?

Uma música construída para virar declaração

Na faixa, Blake Slatkin e Dylan Brady trabalham com uma produção que combina o acabamento do pop mainstream com pequenas zonas de instabilidade.

Os créditos oficiais disponíveis atribuem a composição e a letra a Adéla Jergová, Blake Slatkin, Dylan Brady, Billy Walsh e Theron Thomas. Slatkin e Brady aparecem como produtores, com Slatkin e Bart Schoudel na produção vocal, Manny Marroquin na mixagem e Ruairi O’Flaherty na masterização. [5]

A presença de Dylan Brady inevitavelmente chama atenção por sua associação ao 100 gecs e a uma produção marcada por exagero digital, manipulação vocal e ruptura tímbrica. Isso não transforma “Ain’t In LA” em hyperpop. A estrutura permanece claramente orientada para o pop mainstream.

Os graves são pesados, a bateria eletrônica recebe um tratamento mais áspero em determinados momentos e pequenos cortes e manipulações vocais criam irregularidade suficiente para impedir que tudo soe excessivamente polido. Ao mesmo tempo, os versos permanecem legíveis e a arquitetura da música nunca é colocada em risco.

Brady acrescenta textura, mas não toma a faixa para si. Slatkin, por sua vez, ajuda a garantir que qualquer estranheza permaneça dentro de uma estrutura suficientemente clara para que a música preserve sua função principal. Essa função é fazer a ideia caber numa frase.

O refrão perde detalhes para ganhar circulação

“The baddest bitches ain’t in LA.”

Poucas linhas poderiam ser mais eficientes como refrão. Também poucas linhas poderiam reduzir tanto aquilo que deu origem à música.

A história envolve gerações diferentes de mulheres, circulação cultural durante a Tchecoslováquia socialista, migração, classe, acesso à indústria, memória familiar e a experiência de crescer longe dos lugares que determinam grande parte do imaginário pop internacional. O refrão transforma tudo isso em um slogan.

Essa simplificação é a principal limitação da música. Também é uma de suas forças.

Os versos oferecem alguns dos detalhes mais interessantes porque permitem perceber as condições materiais dessas personagens. Há diferença entre possuir estilo e possuir dinheiro para comprar aquilo que uma determinada indústria define como estiloso. Há diferença entre consumir uma imagem e possuir os meios para produzir uma.

Quando o refrão chega, essas diferenças são comprimidas numa frase que qualquer pessoa pode apropriar. É uma troca muito pop. A faixa perde especificidade e ganha universalização. A questão é saber se o ganho compensa a perda.

Em “Ain’t In LA”, compensa parcialmente porque existe um contexto suficientemente forte ao redor da música para devolver peso à declaração. Sem a fotografia da mãe e sem Bratislava, o refrão correria o risco de parecer apenas uma versão mais sofisticada de um discurso de autoestima. Com elas, o slogan carrega história.

De “Homewrecked” a uma personagem coletiva

A mudança fica mais clara quando “Ain’t In LA” é colocada ao lado de “Homewrecked”.

Em “Homewrecked”, ADÉLA trabalhava com material familiar extremamente particular. A força vinha do desconforto da especificidade. O ouvinte entrava numa experiência que não precisava representar ninguém além da própria autora. “Ain’t In LA” faz o movimento contrário. Parte de uma memória familiar bastante concreta e tenta transformá-la em experiência coletiva.

A Teen Vogue, em seu perfil de agosto de 2026, descreveu a faixa como uma espécie de “immigrant anthem”. [6] A classificação captura parte da obra, mas limita outra.

Imigração é uma dimensão importante porque ADÉLA saiu da Eslováquia em busca de uma carreira internacional. Mas a música também fala sobre pessoas que ficaram. Fala de classe, mobilidade, fama, acesso, beleza, orgulho local e da descoberta de que determinados sonhos parecem existir geograficamente longe de você.

É uma diferença relevante. Nem todas as mulheres evocadas pela composição precisam querer deixar seus países. Talvez o problema seja justamente que tantas carreiras ainda pareçam exigir isso. Nesse sentido, “Ain’t In LA” não fala apenas sobre partir. Fala sobre descobrir por que partir parece obrigatório.

A garota treinada para um grupo global agora controla a própria narrativa

Para parte do público da TONG, ADÉLA ainda será imediatamente associada ao The Debut: Dream Academy, processo criado pela HYBE e pela Geffen para formar o grupo global que posteriormente se tornaria o KATSEYE.

A ligação é relevante, mas precisa ocupar seu tamanho correto. ADÉLA participou do grupo de trainees selecionadas para o projeto e foi eliminada antes da formação final do KATSEYE. [10][11] Sua trajetória não deve ser resumida como a de alguém que “quase entrou” no grupo. O Dream Academy era um processo de formação e seleção, não uma formação previamente constituída da qual ela teria sido removida.

Mais interessante é observar o que aquela experiência deixou. O sistema HYBE x Geffen treinava participantes em dança, canto, performance, câmera, disciplina e construção de imagem para um mercado global. ADÉLA saiu do processo sem integrar o grupo final, mas levou consigo conhecimento direto de como a indústria fabrica uma artista pop contemporânea.

Depois vieram lançamentos próprios, incluindo “Homewrecked” e “Superscar”, trabalhos com nomes como Grimes, a assinatura com a Capitol Records e The Provocateur, lançado em 2025. [12]

A pergunta que “Ain’t In LA” ajuda a responder é se o Dream Academy ainda é necessário para explicar quem ela é. Cada vez menos. Ele explica parte de sua formação industrial. Já não explica sozinho sua linguagem.

The Provocateur tinha raiva. PRIMA quer amplitude

A passagem entre The Provocateur e PRIMA também ajuda a localizar “Ain’t In LA”.

ADÉLA descreveu seu projeto anterior como ligado a um período de maior raiva. Faixas como “Superscar”, “MachineGirl” e “DeathByDevotion” construíam uma persona em permanente atrito com alguma coisa, seja relacionamento, desejo, corpo, controle ou expectativa.

Para PRIMA, o discurso muda. A cantora passou a falar sobre representar de maneira mais ampla a experiência de uma mulher de 22 anos, incluindo força, vulnerabilidade, confiança, diversão, insegurança, amizade, amor e autonomia. [6]

É preciso separar intenção de resultado. Até aqui, os singles realmente apresentam lados diferentes. “KGB” transforma provocação e humor em performance. “Red Bottoms” se aproxima de uma vulnerabilidade romântica mais direta. “Ain’t In LA” desloca a atenção para origem, classe, ambição e pertencimento.

A variedade pode ser sinal de um álbum interessado em amplitude. Também pode deixar a identidade sonora de PRIMA menos evidente antes de seu lançamento completo. Por enquanto, o elemento mais consistente parece ser ADÉLA como personagem. A música muda. A mulher no centro dela continua sendo cuidadosamente construída.

A prima ballerina do pop é uma ideia antes de ser um resultado

O próprio nome PRIMA participa dessa construção.

A palavra aponta para o primeiro álbum de ADÉLA e, simultaneamente, para a expressão prima ballerina. A associação não é acidental. A cantora teve formação séria em balé durante a infância e adolescência antes de redirecionar seu foco para a música. Ela também já declarou a intenção de construir para si uma imagem próxima da ideia de uma “prima ballerina do pop”. [1][6]

A frase é interessante como estratégia de persona. Como diagnóstico artístico, ainda precisa ser testada.

Uma formação em dança pode aparecer de várias maneiras dentro de uma carreira pop. Controle corporal, disciplina de movimento, relação com enquadramento, consciência de linhas, capacidade de alternar precisão e espontaneidade. Ela não precisa aparecer literalmente através de passos de balé. O risco é transformar uma formação real em branding.

“Ain’t In LA” ajuda a escapar parcialmente disso porque o corpo de ADÉLA não é colocado apenas como demonstração de virtuosismo. A lógica da canção exige que a performance dialogue com outras mulheres e com um espaço ligado à própria biografia. Isso faz sua formação em dança funcionar melhor quando é lida como ferramenta de presença do que como referência estética a ser identificada em cada gesto.

“Girlhood” também virou uma estética de mercado

A direção visual de PRIMA, desenvolvida em colaboração com Chris Horan, tem sido associada pela própria equipe a referências como girlhood, hot pink, juventude, feminilidade e Spring Breakers. [6]

A escolha coloca ADÉLA dentro de uma conversa estética bastante presente no pop atual. Rosa intenso, feminilidade performativa, erotização controlada, ironia, nostalgia de adolescência e recuperação de códigos considerados excessivamente “girly” já são elementos amplamente utilizados por artistas contemporâneas.

Isso coloca um problema. Usar rosa não constrói identidade por si só.

O que pode diferenciar ADÉLA é a maneira como essa linguagem entra em choque com sua própria história. Quando o glamour está em Bratislava, perto de sua mãe, irmã e de outras mulheres, a feminilidade deixa de ser apenas acabamento visual e passa a carregar uma questão sobre quem recebeu o direito de ser transformado em imagem.

É nesse ponto que “Ain’t In LA” parece mais útil para PRIMA. Ela fornece contexto ao branding.

O sonho de ser famosa também é parte da história

Existe uma tendência confortável na crítica pop de separar o desejo de criar arte do desejo de ser famosa, como se o primeiro fosse puro e o segundo inevitavelmente superficial. “Ain’t In LA” não funciona muito bem dentro dessa divisão.

ADÉLA é claramente fascinada pela figura da pop star. Ela já discutiu em entrevistas artistas como Rihanna, Beyoncé, Madonna, Miley Cyrus e Ariana Grande não apenas em termos musicais, mas como mulheres que aprenderam a administrar imagem pública, escrutínio e transformação de persona.

A fotografia de sua mãe também envolve celebridades. Não se trata apenas de ouvir música. Trata-se de olhar para estrelas. O desejo de ser vista faz parte da história.

Isso torna a canção mais interessante porque ADÉLA não precisa fingir que sonhava apenas com uma forma abstrata de expressão artística. Existe fascínio por escala, imagem, poder cultural e reconhecimento. E isso também ajuda a explicar Los Angeles como símbolo. A cidade representa uma indústria que transforma talento em visibilidade.

O problema levantado pela música não é querer essa visibilidade. É perguntar quem consegue acessá-la.

A contradição de criticar LA dentro da Capitol Records

Existe uma ironia evidente em uma artista contratada pela Capitol Records lançar uma música que questiona o monopólio cultural simbolizado por Los Angeles. Seria fácil transformar isso em acusação de incoerência. Também seria intelectualmente preguiçoso.

ADÉLA não está fora do sistema apontando para ele. Ela está dentro. Precisou sair de Bratislava, passar por um programa criado por duas grandes empresas de entretenimento, construir uma carreira nos Estados Unidos e assinar com uma gravadora major para conquistar a plataforma que agora utiliza para fazer essa pergunta.

A contradição permanece. Mas ela não destrói o argumento. Ela é parte dele.

Talvez “Ain’t In LA” fosse menos interessante se viesse de alguém completamente afastado da indústria americana. Nesse caso, a crítica ao centro seria mais confortável. ADÉLA fala depois de conseguir acesso.

Sua mãe podia olhar para imagens da cultura pop ocidental numa parede. A filha agora participa profissionalmente da fabricação dessas imagens. Essa mudança geracional talvez seja a verdadeira história da música.

Então quem recebe permissão para ser uma estrela?

“Ain’t In LA” funciona particularmente bem quando mantém sua história familiar perto da superfície. A fotografia da mãe, os detalhes de classe presentes nos versos e a decisão de colocar Bratislava no centro do projeto dão à música uma densidade que seu refrão, isoladamente, não teria.

Sua principal limitação está justamente nesse refrão. A eficiência depende de comprimir desigualdade de acesso, geografia cultural, memória e ambição numa frase pronta para circular. Como slogan, é ótima. Como síntese completa daquilo que a própria canção levanta, é insuficiente.

O MV encontra sua ideia mais forte em Bratislava. A cidade não está ali simplesmente porque ADÉLA nasceu nela. Está ali porque “Ain’t In LA” perderia parte significativa de seu argumento se fosse filmado em Los Angeles, Nova York ou em um cenário genérico. Era necessário voltar ao lugar de onde a fantasia era observada.

Dentro da transição de The Provocateur para PRIMA, a faixa também aponta para uma mudança real, embora ainda incompleta. ADÉLA parece menos interessada em transformar cada música numa exposição diretamente autobiográfica e mais interessada em utilizar a própria história como matéria para construir personagens e ideias maiores. Isso não significa abandonar a provocação. Significa reorganizá-la.

A pergunta central de “Ain’t In LA” não é se ADÉLA conseguiu sair de Bratislava e chegar à indústria internacional. Sabemos que conseguiu. A questão é o que acontece quando alguém que recebeu essa oportunidade olha para trás e percebe quantas pessoas igualmente capazes nunca chegaram perto dela.

ADÉLA não resolve esse desequilíbrio ao retornar à cidade natal com uma produção financiada por uma grande gravadora americana. Também não finge poder resolvê-lo. O que a canção consegue fazer é colocar essa desigualdade dentro da própria fantasia pop que a produziu.

Conclusão: talvez o problema nunca tenha sido a falta de estrelas fora de Los Angeles. Talvez tenha sido a distribuição extremamente desigual das máquinas capazes de fazê-las aparecer.

Referências

  1. Universal Music Canada / Capitol Records: release de “Ain’t In LA” e anúncio de PRIMA, 23 jul. 2026.

  2. Spotify: pré-lançamento oficial de PRIMA. Consulta em 23 ago. 2026.

  3. Apple Music: página oficial de PRIMA. Consulta em 23 ago. 2026.

  4. Fred Gervais: créditos públicos de produção de “ADÉLA – Ain’t In LA”.

  5. Qobuz: créditos fonográficos de “Ain’t In LA”. Consulta em 23 ago. 2026.

  6. Teen Vogue: “Adéla Ascending”, 12 ago. 2026.

  7. U.S. Department of State, Office of the Historian: material histórico sobre a invasão da Tchecoslováquia em 1968.

  8. Husák, Martin: “Rock Music Censorship in Czechoslovakia between 1969 and 1989”, Popular Music and Society.

  9. The FADER: cobertura do anúncio de PRIMA e lançamento de “Ain’t In LA”, 23 jul. 2026.

  10. Netflix Tudum: materiais oficiais sobre The Debut: Dream Academy e a formação do KATSEYE.

  11. Netflix Tudum: perfis das participantes retratadas em Pop Star Academy: KATSEYE.

  12. Vogue: entrevista com ADÉLA sobre sua carreira solo e The Provocateur.