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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Especial · K-Culture

Chuseok: o que a maior lua cheia do outono conta sobre a Coreia

Celebrado no 15º dia do oitavo mês lunar, o feriado reúne colheita, memória familiar, comida e tradições transmitidas por gerações. Em 2026, o Chuseok caiu em 25 de setembro e transformou três dias em um dos períodos mais importantes do calendário sul-coreano.

Jenifer Rodrigues

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Na noite de Chuseok, há um elemento da paisagem que ajuda a explicar por que essa celebração atravessou tantos séculos da história coreana: a lua cheia. O feriado acontece justamente no 15º dia do oitavo mês do calendário lunar, quando tradicionalmente se celebrava a chegada do outono, a colheita e a abundância produzida ao longo do ano. Em uma sociedade cuja vida esteve durante séculos profundamente ligada à agricultura, aquele era o momento de reunir o que havia sido produzido, agradecer e compartilhar alimentos com a família.

É por isso que reduzir o Chuseok ao frequentemente usado “Thanksgiving coreano” ajuda um estrangeiro a localizar rapidamente a ideia de um feriado de gratidão, comida e família, mas não explica completamente o que a data significa. O Chuseok nasceu dentro de referências históricas, familiares e agrícolas próprias da Península Coreana e acumulou práticas que não possuem equivalência direta no feriado norte-americano.

Seu outro nome ajuda a começar essa história. Hangawi (한가위) é uma denominação tradicional associada ao período central do oitavo mês lunar, enquanto Chuseok (추석) pode ser entendido em referência à noite de outono. A data principal sempre acompanha o calendário lunar e, por isso, muda no calendário gregoriano de um ano para outro. Em 2026, o Chuseok caiu na sexta-feira, 25 de setembro, com o período oficial de feriado entre os dias 24 e 26.

Antes do K-pop, dos K-dramas e da Coreia que conhecemos hoje

As origens exatas do Chuseok não cabem em uma única história simples. A celebração está ligada ao passado agrícola coreano e diferentes práticas de colheita foram incorporadas à data ao longo do tempo. Por isso, é mais seguro compreender o Chuseok como resultado de tradições desenvolvidas e transformadas durante séculos do que tentar atribuir sua criação a um único acontecimento histórico.

A própria lógica do feriado revela muito sobre a sociedade que o formou. O arroz recém-colhido e outros produtos da estação chegavam à mesa justamente quando as famílias celebravam a abundância do outono. A comida, portanto, não era apenas parte de uma festa. Ela representava concretamente aquilo que havia sido produzido durante o ano.

Esse vínculo entre colheita, comunidade e memória permaneceu mesmo depois que a Coreia passou por uma das transformações econômicas e urbanas mais rápidas do século XX. Hoje, milhões de sul-coreanos vivem em apartamentos, trabalham em grandes centros urbanos e não possuem relação direta com a agricultura. Ainda assim, quando chega o Chuseok, alimentos, deslocamentos familiares e rituais herdados do passado voltam a organizar parte da vida do país.

É justamente essa continuidade dentro de uma sociedade completamente diferente que torna o feriado tão interessante.

Por que tanta gente deixa Seul durante o Chuseok?

Se existe uma imagem contemporânea capaz de representar o Chuseok tão bem quanto a mesa de uma família, talvez seja uma rodovia congestionada.

Durante décadas de industrialização e urbanização, uma parcela enorme da população coreana migrou para grandes centros, especialmente para a região metropolitana de Seul. O feriado tornou-se, consequentemente, um período de retorno às cidades natais e de reencontro entre parentes que vivem distantes.

A movimentação é tão grande que conseguir passagens de trem ou ônibus pode se tornar difícil. A própria Organização de Turismo da Coreia recomenda que viajantes façam reservas antecipadamente durante o Chuseok porque a demanda aumenta rapidamente e bilhetes podem se esgotar. Comércio, restaurantes e atrações também operam com horários especiais, enquanto palácios, museus e espaços culturais realizam programações relacionadas às tradições do feriado.

A Coreia altamente conectada e tecnologicamente avançada, portanto, vive por alguns dias um movimento provocado por uma tradição muito anterior aos trens de alta velocidade que hoje transportam famílias pelo país.

A mesa também conta a história do Chuseok

Entre todos os alimentos associados ao feriado, nenhum se tornou tão reconhecível quanto o songpyeon (송편).

São pequenos bolinhos feitos de massa de arroz e recheados com ingredientes que podem incluir gergelim, feijão e outras combinações. Depois de moldados, tradicionalmente são cozidos no vapor sobre uma camada de agulhas de pinheiro, responsáveis também por acrescentar aroma ao preparo.

Há um detalhe especialmente bonito em sua aparência: embora o Chuseok aconteça sob uma lua cheia, o songpyeon tradicionalmente possui formato semelhante a uma meia-lua.

A Organização de Turismo da Coreia explica essa forma pela associação da lua crescente com crescimento e prosperidade. A ideia é olhar não apenas para aquilo que já atingiu sua plenitude, mas para algo que ainda pode crescer.

Prepará-lo também pode ser uma atividade coletiva. Em vez de simplesmente comprar uma sobremesa pronta, famílias podem se reunir para moldar diferentes unidades, criando pequenas variações de formato e recheio. É justamente aí que comida e memória familiar se encontram: uma receita deixa de ser apenas algo consumido e passa a ser algo feito em conjunto.

Mas uma mesa de Chuseok não vive somente de songpyeon. Jeon, preparações de carne, vegetais ou frutos do mar envoltos em uma mistura com ovo e preparados na frigideira, também são comuns. Japchae, feito com macarrão transparente e vegetais, e doces tradicionais como yakgwa podem igualmente aparecer durante o período.

Não existe, porém, uma única mesa universal de Chuseok. Receitas, ingredientes e hábitos variam entre famílias e regiões, e a própria maneira de celebrar mudou bastante com o passar das gerações.

Charye: quando a reunião também inclui aqueles que vieram antes

Outro aspecto historicamente importante do Chuseok é a relação com os antepassados.

Algumas famílias realizam o charye (차례), rito memorial no qual alimentos são preparados e apresentados em homenagem aos ancestrais. A prática está ligada a uma tradição mais ampla de respeito aos antepassados e à estrutura familiar que influenciou profundamente a sociedade coreana.

Também existe o seongmyo (성묘), a visita aos túmulos de familiares falecidos. Associado a isso está o beolcho (벌초), a limpeza da vegetação ao redor das sepulturas antes ou durante o período.

Essas práticas ajudam a explicar por que o Chuseok não é simplesmente uma grande refeição anual. Existe nele uma dimensão de continuidade familiar: reunir a geração presente enquanto se reconhecem aquelas que vieram antes.

Isso também não significa que todas as famílias sul-coreanas contemporâneas façam exatamente os mesmos rituais. A intensidade e até a existência dessas práticas variam de acordo com religião, região, estrutura familiar e escolhas pessoais. Tratar cada casa coreana como se reproduzisse um manual imutável de tradições seria transformar uma cultura viva em cenário.

Uma dança sob a lua que atravessou séculos

Quando a lua cheia aparece no Chuseok, uma das manifestações culturais historicamente associadas à celebração é o ganggangsullae (강강술래).

Tradicionalmente difundida especialmente no sudoeste da Península Coreana, a prática reúne mulheres em uma grande roda, de mãos dadas, cantando e dançando sob a lua. Uma cantora conduz os versos enquanto o restante do grupo responde com o refrão que dá nome à dança.

O significado exato da palavra ganggangsullae permanece incerto, mas a tradição sobreviveu. E sua importância ultrapassou as fronteiras coreanas: em 2009, a UNESCO inscreveu o ganggangsullae na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Há também uma dimensão histórica feminina particularmente interessante. Segundo a UNESCO, em comunidades rurais onde jovens mulheres enfrentavam fortes restrições sociais sobre sair à noite ou cantar publicamente, o período de Chuseok oferecia uma rara oportunidade para essa reunião coletiva. Hoje, a manifestação mudou: é preservada por grupos culturais, apresentada como arte tradicional e também ensinada no sistema educacional coreano.

Uma dança que nasceu dentro de uma sociedade agrícola, portanto, continua existindo em uma Coreia urbanizada e globalizada.

E Chuseok também era tempo de brincar

A celebração historicamente reúne diferentes manifestações populares.

Além do ganggangsullae, o período é associado a atividades como ssireum, a tradicional luta coreana, além de danças de máscaras e apresentações musicais. O caráter comunitário dessas atividades faz sentido quando lembramos que o Chuseok marcava um intervalo dentro do calendário agrícola, quando a colheita permitia celebrar coletivamente aquilo que havia sido produzido.

Hoje, muitas dessas práticas aparecem principalmente em festivais, museus, vilas tradicionais e eventos culturais, em vez de fazerem parte da rotina de todas as famílias.

Em 2026, por exemplo, museus nacionais organizaram atividades tradicionais durante o feriado, enquanto o Namsangol Hanok Village, em Seul, programou apresentações, experiências com hanbok, jogos tradicionais e gastronomia. A Fortaleza de Namhansanseong também preparou atividades especiais para o período.

É uma maneira contemporânea de manter essas práticas visíveis mesmo para pessoas cuja experiência de Chuseok já não acontece em uma comunidade rural.

Das frutas da colheita às caixas de Spam

Se a tradição explica parte do Chuseok, o capitalismo sul-coreano explica outra.

Dar presentes tornou-se uma característica marcante do feriado contemporâneo. Supermercados e lojas de departamento montam elaborados conjuntos para presentear familiares, conhecidos e contatos profissionais.

E os conteúdos dessas caixas podem surpreender quem conhece a Coreia apenas pela cultura pop.

Frutas cuidadosamente selecionadas, carne bovina hanwoo, produtos de saúde, óleos culinários, cosméticos e alimentos industrializados podem aparecer em diferentes faixas de preço. Alguns conjuntos são luxuosos; outros foram desenvolvidos justamente para funcionar como presentes acessíveis e úteis.

Por isso, produtos industrializados que podem parecer banais em outro contexto também se transformaram em presentes de Chuseok. A lógica não está necessariamente no luxo individual de cada item, mas na apresentação, utilidade e hábito social de oferecer algo durante o feriado.

É um ótimo exemplo de como tradições não permanecem congeladas. Uma celebração construída em torno dos alimentos da colheita passou a incorporar produtos de uma economia industrial, marcas contemporâneas, comércio eletrônico e grandes lojas de departamento.

O Chuseok que aparece no K-pop

Para quem acompanha a Coreia principalmente pelo entretenimento, existe ainda outra porta de entrada para o feriado.

É comum que artistas publiquem mensagens especiais de Chuseok, apareçam usando hanbok ou participem de conteúdos temáticos preparados pelas empresas. Programas de variedades também aproveitam o período para episódios especiais e jogos tradicionais.

Para um público internacional, essas imagens podem ser o primeiro contato com a celebração. Mas elas representam somente uma versão cuidadosamente produzida de algo muito maior.

O hanbok, o songpyeon e as brincadeiras tradicionais são elementos reais da cultura coreana. O problema aparece quando esse recorte promocional passa a ser entendido como se fosse a experiência cotidiana de todas as famílias.

O Chuseok real também pode significar horas dentro de um carro, disputar uma passagem de trem, reencontrar parentes que não se vê há meses, ajudar a preparar comida, visitar um túmulo, comprar um presente no último minuto ou simplesmente aproveitar alguns dias sem trabalhar.

Nem toda tradição é vivida da mesma maneira hoje

Existe ainda uma transformação geracional importante.

O Chuseok historicamente envolveu uma quantidade considerável de trabalho doméstico, especialmente na preparação de alimentos e ritos familiares. Em estruturas familiares mais tradicionais, grande parte dessa responsabilidade recaía sobre mulheres.

A Coreia contemporânea discute cada vez mais essas divisões. Algumas famílias simplificaram cerimônias, outras compram alimentos preparados em vez de fazê-los em casa e algumas preferem aproveitar os dias de folga para viajar.

Isso não significa necessariamente que o Chuseok esteja desaparecendo.

Significa que ele está mudando.

Uma tradição pode continuar relevante mesmo quando as pessoas renegociam a forma de praticá-la. Aliás, é justamente essa capacidade de adaptação que frequentemente permite que costumes atravessem gerações.

Chuseok não é simplesmente “o Natal coreano”

Essa comparação também aparece bastante fora da Coreia.

É compreensível. Há reunião familiar, deslocamentos pelo país, presentes, muita comida e alguns dias de feriado. Para um brasileiro tentando visualizar o tamanho social da data, comparar a movimentação com o Natal pode ajudar.

Culturalmente, porém, são celebrações completamente diferentes.

Chuseok não celebra o nascimento de uma figura religiosa e não possui a mesma história do Natal. Sua formação está ligada ao calendário lunar, à agricultura, à colheita, à memória dos antepassados e às tradições coreanas.

Da mesma maneira, chamá-lo apenas de “Ação de Graças coreano” cria uma aproximação útil, mas incompleta.

Talvez seja melhor não procurar um equivalente.

Chuseok é Chuseok.

O que a lua cheia ainda significa em uma Coreia completamente diferente

Talvez essa seja a parte mais interessante da celebração para quem observa a Coreia de fora.

O país associado hoje a semicondutores, smartphones, K-pop, streaming, cosméticos e cidades hiperconectadas continua organizando um de seus maiores períodos de descanso ao redor de uma data determinada pela lua.

Famílias atravessam o país em trens de alta velocidade para participar de uma tradição formada quando a velocidade da vida coreana era determinada pelas estações agrícolas. Pessoas enviam presentes comprados por aplicativos enquanto comem alimentos cuja história atravessa gerações. Uma dança tradicionalmente realizada por mulheres sob a lua cheia continua sendo ensinada a crianças e reconhecida pela UNESCO como patrimônio cultural da humanidade.

Em 25 de setembro de 2026, quando a Coreia celebrou mais um Chuseok, não estava simplesmente repetindo um ritual antigo. Estava fazendo algo que culturas fazem o tempo inteiro: escolhendo o que preservar, transformando o que já não funciona da mesma maneira e encontrando novas formas de transmitir antigas memórias.

Talvez seja justamente por isso que o Chuseok permaneça tão importante. Entre o songpyeon, as viagens para casa, as mesas familiares e a lua cheia do oitavo mês lunar, o feriado conecta diferentes versões da Coreia: a agrícola e a urbana, a ancestral e a contemporânea, aquela que existia muito antes da Hallyu e aquela que hoje apresenta sua cultura ao mundo.

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