TXT corre contra o fim em “Setsuna Hanabi”
Em seu quinto single japonês, o TOMORROW X TOGETHER transforma uma despedida anunciada em movimento. O MV encontra força justamente onde evita explicar demais, mas sua fragmentação também cobra um preço.
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Veredito da TONG
Nota da crítica, de 0 a 10 — independente e sem interferência comercial.

O TOMORROW X TOGETHER lançou “セツナハナビ (Setsuna Hanabi)” digitalmente em 17 de agosto de 2026, mesma data em que o MV chegou ao público. A edição física do quinto single japonês do grupo foi lançada dois dias depois, em 19 de agosto. [1] A diferença entre as datas resolve uma questão de calendário. O que acontece dentro do MV é menos simples.
“Setsuna Hanabi” parte de uma ideia conhecida. Uma relação está terminando, alguém sabe disso e gostaria de prolongar os instantes restantes. A imagem escolhida para organizar esse sentimento também é familiar: fogos de artifício em uma noite de verão, belos justamente porque desaparecem rápido. A própria Universal Music Japan apresenta essa comparação como conceito oficial da música. [1]
Seria fácil transformar isso em três minutos de nostalgia. Fogos, juventude, lembranças felizes, olhares melancólicos e uma despedida. Woogie Kim, porém, dirige o MV a partir de uma decisão mais interessante: ninguém parece ter o privilégio de simplesmente parar para sofrer.
YEONJUN atravessa a estrada em uma motocicleta. HUENINGKAI ocupa o corpo com o kendo. BEOMGYU permanece com a guitarra. TAEHYUN deixa um hospital. SOOBIN carrega a tristeza de maneira mais frontal. Em paralelo, o MV recupera momentos em que os cinco ainda dividiam o mesmo espaço. A Universal Music Japan confirma essa estrutura de histórias individuais intercaladas com recordações felizes. [1]
O resultado desloca a pergunta principal. Não é apenas “o que eles perderam?”, mas por que todos continuam se movendo depois da perda? É nessa contradição que “Setsuna Hanabi” encontra sua melhor ideia.
O presente separa aquilo que a memória mantém junto
O MV não precisa mostrar uma ruptura explícita para estabelecer que alguma coisa mudou.
Sua estratégia mais eficiente está na distribuição dos integrantes. As cenas individuais dão ao presente uma sensação de isolamento, enquanto a lembrança funciona como espaço coletivo. O que antes podia existir dentro de um mesmo enquadramento agora precisa ser reconstruído pela montagem. Essa diferença importa mais do que descobrir uma explicação literal para cada personagem.
Seria tentador procurar uma chave narrativa escondida. O que aconteceu com TAEHYUN? Para onde YEONJUN está indo? Por que HUENINGKAI pratica kendo? O que BEOMGYU tenta elaborar através da guitarra? Por que SOOBIN parece carregar a tristeza de maneira mais visível? O MV oferece material para essas perguntas, mas é menos generoso com respostas.
Isso não significa que cada atividade precise virar símbolo. A motocicleta não precisa significar fuga. O kendo não precisa representar uma “batalha interior”. A guitarra não precisa transformar BEOMGYU no personagem que converte dor em arte. E a presença de um hospital não autoriza concluir doença, acidente ou morte.
A força dessas cenas está primeiro em algo mais concreto: cada personagem possui uma ação para executar e nenhum deles consegue recuperar, através dela, aquilo que existia quando estavam juntos. Essa estrutura torna o vazio coletivo perceptível sem precisar colocar os cinco diante de uma conversa de despedida.
É uma escolha particularmente adequada para TXT. O grupo passou boa parte de sua carreira transformando amizade, juventude, mudança e crescimento em matéria narrativa. Em “Setsuna Hanabi”, o vínculo parece ser compreendido pelo negativo. O MV mostra o peso do grupo justamente quando deixa de mantê-lo fisicamente reunido.
Cinco formas diferentes de continuar
A divisão entre os integrantes também impede que o MV reduza tristeza a uma única expressão.
SOOBIN se aproxima mais da melancolia que o conceito oficial descreve diretamente. Sua presença funciona como uma espécie de eixo emocional porque a dor aparece menos mediada por uma atividade externa. [1]
YEONJUN está no extremo oposto. A motocicleta introduz velocidade e risco visual. Mais importante do que decidir se ele está “fugindo” é perceber que seu segmento transforma deslocamento em estado emocional. Ele continua atravessando o espaço, mesmo que o MV não prometa um destino capaz de resolver alguma coisa.
HUENINGKAI recebe outra relação entre movimento e controle. O kendo depende de disciplina, repetição, precisão e consciência corporal. O MV não precisa transformá-lo em metáfora psicológica para aproveitar visualmente essa tensão. Há força no contraste entre uma situação emocional que escapa ao controle e uma prática física baseada justamente em controlar o corpo.
BEOMGYU, sozinho com a guitarra, produz uma interrupção interessante nesse conjunto porque seu movimento é menos espacial. Ele não precisa percorrer uma estrada. Sua ação acontece dentro de um espaço mais fechado e introspectivo. A imagem ainda conversa com uma familiaridade pública do integrante com instrumentos, mas funciona sem exigir esse conhecimento prévio.
TAEHYUN talvez receba a situação narrativa mais aberta. Sair de um hospital imediatamente cria perguntas, e o MV é inteligente ao não transformar o cenário em explicação automática. O hospital produz informação suficiente para gerar inquietação, mas insuficiente para fechar uma história.
Separadamente, esses fragmentos poderiam parecer cinco conceitos concorrentes. É a montagem que precisa convencê-los a pertencer ao mesmo MV. E, na maior parte do tempo, consegue.
A memória é o único lugar em que os cinco ainda cabem
“Setsuna Hanabi” depende menos de uma narrativa linear do que da colisão entre dois estados. Existe aquilo que cada um faz agora e aquilo que os cinco viveram antes.
A intercalação das lembranças impede que as cenas felizes funcionem apenas como decoração sentimental. Elas adquirem valor porque o presente retirou alguma coisa delas. Ver os cinco juntos depois de vê-los separados muda a função da imagem. A felicidade deixa de ser informação e passa a ser comparação.
Esse mecanismo é simples, talvez até convencional, mas funciona porque Woogie Kim não precisa construir um passado gigantesco. Pequenos registros de convivência são suficientes quando a ausência já foi estabelecida.
O MV também encontra aqui uma maneira eficiente de aproximar a narrativa da letra sem simplesmente ilustrá-la. A canção fala de alguém que sabe que uma relação está chegando ao fim e deseja prolongá-la. [1] O MV não precisa representar literalmente o casal da letra. Ele transfere o sentimento para uma experiência coletiva.
Essa diferença amplia a leitura. O que terminou pode ser uma amizade. Pode ser um período específico da vida. Pode ser aquele verão. Pode existir um acontecimento concreto por trás da separação que o MV prefere não esclarecer. Não saber exatamente o que foi perdido não enfraquece automaticamente a história.
Na verdade, a indefinição ajuda “Setsuna Hanabi” até certo ponto. O espectador reconhece a diferença entre antes e depois sem receber um manual explicando o que aconteceu entre os dois. O problema começa quando a sugestão ameaça se tornar dependência.
Há tantos elementos potencialmente significativos espalhados pelas histórias individuais que o MV ocasionalmente parece pedir que o público procure uma solução narrativa que talvez não exista. O hospital, a motocicleta, o kendo e a guitarra carregam pesos dramáticos muito diferentes. Reuni-los apenas pelo estado emocional dos personagens exige bastante da montagem.
A ambiguidade funciona melhor quando a pergunta é “o que exatamente eles perderam?”. Funciona menos quando se transforma em “por que essas cinco histórias específicas estão acontecendo?”. Essa é a principal limitação narrativa do MV.
O movimento não permite que a despedida espere
A decisão visual se torna mais interessante quando colocada ao lado da música. Uma canção sobre o desejo de prolongar algo que está acabando poderia facilmente desacelerar. “Setsuna Hanabi” faz o contrário.
O material oficial japonês descreve sintetizadores agressivos, ritmo intenso e texturas mais orgânicas dentro de uma produção classificada como ブラジリアン・フォンク, Brazilian phonk. [1] Uma crítica publicada pelo The Bias List também chamou atenção para a percussão insistente e para um groove de textura mecânica que mantém a faixa constantemente em movimento. [2]
Essa insistência rítmica muda a experiência do MV. YEONJUN na motocicleta deixa de ser apenas uma imagem de velocidade porque existe uma música empurrando a sequência. O kendo de HUENINGKAI encontra correspondência na fisicalidade da percussão. A montagem entre presente e memória precisa disputar espaço com um instrumental que não se dispõe a permanecer contemplativo por muito tempo.
A tristeza, então, não interrompe o corpo.
Seus personagens gostariam de permanecer ligados a alguma coisa que já está desaparecendo, mas o mundo continua exigindo movimento.
Esse talvez seja o gesto mais bem resolvido de “Setsuna Hanabi”. O tempo passa independentemente da vontade deles.
É também por isso que a ausência de uma coreografia tradicional no centro do MV faz sentido. Uma faixa rítmica de TXT poderia facilmente ser organizada ao redor de performance coletiva. Aqui, colocar os cinco dançando juntos enfraqueceria justamente a ausência que a narrativa precisa construir. Em vez de coreografia como espetáculo, o MV encontra movimento na própria ação dos personagens.
O “Brazilian phonk” funciona melhor como impulso do que como identidade
Para uma publicação brasileira, a classificação musical exige precisão.
A Universal Music Japan não descreve “Setsuna Hanabi” simplesmente como Brazilian funk. O termo utilizado é ブラジリアン・フォンク, Brazilian phonk. [1] A diferença é relevante porque o Brazilian phonk é uma categoria internacional que absorveu elementos associados ao funk brasileiro, especialmente códigos que circularam globalmente a partir de produções como mandelão e automotivo, mas não deve ser tratado como sinônimo de funk brasileiro.
Em “Setsuna Hanabi”, é mais convincente falar dessa influência como linguagem rítmica e tímbrica do que tentar encaixar a faixa em uma vertente brasileira específica. Não há base suficiente para classificá-la como mandelão, automotivo ou funk carioca em sentido estrito. Também não há, nos créditos disponíveis consultados para a faixa, participação brasileira que permita construir uma genealogia direta entre a produção e uma cena local.
O que interessa para o MV é o resultado dessa escolha. O beat possui insistência suficiente para impedir que as imagens se acomodem completamente na melancolia. A produção não deixa a memória virar repouso.
Nesse sentido, a referência funciona. Talvez funcione até melhor dramaticamente do que como afirmação de gênero.
Um fogo de artifício que demora a explodir
Há uma ironia interessante no centro da faixa. Uma música chamada “Setsuna Hanabi” poderia ser construída em direção a uma enorme explosão. O próprio fogo de artifício sugere preparação, subida, estouro e desaparecimento. A música, porém, não oferece um clímax proporcional a essa expectativa.
The Bias List identificou justamente essa característica ao elogiar textura, groove e percussão, mas considerar a composição relativamente plana e sem um grande momento central. [2] É uma crítica pertinente.
O refrão amplia o sentimento, mas não transforma radicalmente a faixa. A produção prefere insistir a explodir. Há continuidade onde poderíamos esperar ruptura.
Isso pode ser lido como coerência. Afinal, “Setsuna Hanabi” não fala exatamente do momento em que algo termina. Fala da agonia de perceber que o término está chegando. A tensão está na espera. Mas coerência conceitual não elimina completamente uma limitação musical.
A faixa poderia construir mais contraste sem necessariamente recorrer a um drop gigantesco ou a uma modulação sentimental previsível. Em alguns momentos, o instrumental parece tão comprometido com sua pulsação que diferentes etapas da canção começam a ocupar uma faixa emocional estreita demais.
O MV ajuda a compensar isso. Enquanto a música mantém sua trajetória relativamente linear, a alternância entre personagens, espaços e lembranças produz mudanças de perspectiva. A imagem oferece parte da progressão dramática que a composição musical evita. É uma relação produtiva, embora revele que o MV trabalha um pouco mais do que a música para alcançar o impacto pretendido.
Os fogos não são a parte mais interessante de “Setsuna Hanabi”
É curioso que o elemento mais óbvio do conceito seja também o menos necessário para entender por que o MV funciona.
“Hanabi” significa fogos de artifício, enquanto “setsuna” pode carregar a ideia de um instante extremamente breve. A proximidade sonora com setsunai, palavra associada a uma sensação dolorosa ou pungente, adiciona outra camada possível, embora não haja motivo para transformar essa aproximação linguística em intenção autoral confirmada.
Fogos de verão já carregam uma enorme bagagem dentro da cultura pop japonesa. Juventude, festivais, encontros, despedidas e memórias de verão recorrem há décadas em músicas, filmes, animes e dramas. Por isso, simplesmente mostrar fogos diante de personagens tristes não seria suficiente.
O MV é melhor quando não depende deles. Sua imagem realmente forte é outra: os cinco separados.
Os fogos fornecem o vocabulário para falar de brevidade. A montagem fornece a experiência dessa brevidade. Quando vemos momentos coletivos atravessando um presente individualizado, entendemos que alguma coisa terminou antes mesmo de descobrir exatamente o quê. É aí que a metáfora deixa de ser decoração.
TXT conhece essa despedida, mas agora olha para ela de outro ponto
Juventude, amizade, mudança e separação não são assuntos novos para o TOMORROW X TOGETHER.
Desde The Dream Chapter, o grupo constrói boa parte de sua identidade em torno de personagens que descobrem o mundo através das relações que estabelecem uns com os outros. Depois, trabalhos como The Chaos Chapter, minisode e The Name Chapter complicaram essa relação entre crescimento, desejo, perda e transformação.
“Setsuna Hanabi” não precisa fingir que encontrou um tema novo. Sua diferença está na posição dos personagens diante dele. Aqui, ninguém parece descobrir pela primeira vez que as coisas acabam. A dor vem justamente de perceber o fim antes que ele se complete.
Isso também combina com a evolução do repertório japonês do grupo. Desde Magic Hour, em 2020, TXT passou de um catálogo inicialmente muito dependente de versões japonesas de músicas coreanas para uma discografia que reserva espaço cada vez maior a faixas originais produzidas especificamente para o Japão. Projetos como Chaotic Wonderland, Sweet, Chikai e o álbum Starkissed, lançado em outubro de 2025, ajudam a mostrar essa trajetória.
“Setsuna Hanabi” pertence claramente a essa segunda fase. Ohashi Chippoke participa da composição da letra, e o projeto inteiro está inserido em referências e parcerias específicas do mercado japonês. Isso importa menos como curiosidade industrial do que como explicação para o modo como a música trabalha uma imagem tão ligada ao verão japonês sem parecer simplesmente uma versão localizada de um single coreano.
Ainda assim, o MV funciona sem exigir conhecimento dessa história. E isso é importante.
O fim não acontece quando alguém vai embora
A melhor decisão de “Setsuna Hanabi” é não transformar a despedida em um único acontecimento.
Não existe necessidade de uma grande cena em que todos percebam simultaneamente que alguma coisa terminou. A perda já aconteceu na organização dos espaços. No presente, cada um precisa continuar. Na memória, eles ainda conseguem estar juntos.
Essa oposição permite que o MV fale de separação sem depender exclusivamente da letra e sem transformar seus personagens em ilustrações de versos específicos. Também justifica por que uma música tão fisicamente movimentada acompanha imagens de pessoas emocionalmente presas ao passado.
A principal qualidade do MV está nessa relação entre movimento e ausência. Sua principal limitação aparece quando as histórias individuais acumulam elementos narrativos demais para o pouco que pretendem explicar. Existe uma diferença entre deixar espaço para interpretação e espalhar pistas que parecem prometer uma resposta. “Setsuna Hanabi” nem sempre decide de que lado dessa fronteira quer ficar.
Musicalmente, acontece algo parecido. A produção encontra personalidade em sua pulsação insistente e na linguagem internacional identificada oficialmente como Brazilian phonk, mas poderia desenvolver melhor essa base. A falta de um clímax mais pronunciado pode dialogar com uma despedida que nunca recebe catarse completa, porém não deixa de produzir certa linearidade.
Mesmo assim, música e MV encontram um ponto comum bastante preciso. O narrador quer mais tempo. As lembranças preservam aquilo que existia. Os personagens parecem incapazes de abandonar completamente o passado. Nada disso faz o presente parar.
Conclusão: talvez seja essa a leitura mais forte que TXT encontra para um assunto que conhece há anos. Crescer não significa apenas perder pessoas, lugares ou versões de si mesmo. Às vezes, o desconforto está em perceber que ainda não terminamos de nos despedir quando a vida já começou a seguir sem pedir nossa autorização. Em “Setsuna Hanabi”, todos continuam em movimento. É justamente por isso que a ausência pesa tanto.
Referências
Universal Music Japan: informações oficiais sobre o lançamento de “セツナハナビ (Setsuna Hanabi)”, conceito da música e estrutura do MV, 17 ago. 2026.
The Bias List: “Song Review: TXT – Setsuna Hanabi”, 17 ago. 2026.
Universal Music Japan / TXT Japan Official: discografia e informações do quinto single japonês.